"Well, it's been days now and you change your mind again
All the cracks in the walls reminds you of things we said
And I could tell you that I won't hurt you this time
But it's just safer to keep you in this heart of mine."
Na minha fase de pré-adolescência, tinha por hábito algo muito aleatório: escrever cartas endereçadas a pessoas que faziam parte da minha vida, directa ou indirectamente, a descrever tudo aquilo que tornava a pessoa em questão especial para mim. Escrevia as minhas angústias, os meus receios, o que me fazia ficar de "pé atrás". Se me lembrasse escrevia até como é que tinha conhecido aquela pessoa, quais eram as minhas primeiras memórias, e mais importante: demonstrava sempre o quão importante esse alguém era para mim. E porquê. E quais foram os motivos, se é que existiam. O meu pensamento era: "se um dia me acontecer alguma coisa, ninguém importante na minha vida há-de ficar sem saber o significado que tem/teve para mim". Acabou por ser uma ideia engraçada, e que perdurou durante largos meses, até que desisti. Algures no mês de Agosto de 2013, fiz uma coisa que faço muito, muito raramente: pegar na minha caixinha com coisas antigas escritas. A minha box of revelations, como por pura brincadeira gosto de lhe chamar. E eis que encontro essas cartas. Confesso que passei uma tarde muito boa. Ri-me muito sozinha, chorei em iguais ou maiores quantidades...
Pensei: "porque não retomar esta ideia?" Realmente, passados oito anos, o fundamento é o mesmo. E nesses oito anos, acabou por me acontecer. Perdi demasiada gente a quem nada disse. Pelo menos, nada do que queria. Perdi pessoas que nunca mais terei oportunidade de vislumbrar, e que neste momento não sabem, e nunca saberão, a importância que tinham na minha vida. E eu não quero viver com esse peso na consciência. Nem no coração. Nunca mais.
Assim o fiz. No dia seguinte, já estava a escrever cartas aleatórias ao Carlos Eduardo da Maia. Há que ser prevenida, se um dia o Fábio Assunção ficar com conhecimento disto, há-de saber que para mim não há Carlos da Maia como ele, e o meu propósito está arrumado. Passei um dia inteiro a rascunhar pessoas a quem gostava de dizer algumas coisas. Rabiscos escritos aqui e acolá, por entre montes e vales, sufocos e risos saudosistas.
Tudo isto se deve ao facto de eu, na minha profunda estupidez, ter decidido ler uma dessas cartas. Uma das mais recentes. Uma carta dirigida a um amor perdido, e que nunca, mas nunca vou ter o mínimo de chance de conseguir recuperar, porque é demasiado irrealizável, até para os meus romances históricos. Não, não andei a escrever cartas para o Henrique Tudor, nem para o Sá Carneiro, tampouco para o verdadeiro amor platónico da minha vida, Lukas Podolski. Mas ainda assim, doeu-me. Cada palavra cortava-me como uma lâmina acabadinha de afiar. Detalhei tudo: o meu primeiro olhar, a minha primeira desconfiança, as minhas primeiras borboletas no estômago, aquelas tais que toda a gente sabe que eu odeio de morte, a minha primeira desilusão, a minha primeira constatação do impossível... Escrutinei tudo até ao último segundo. Sei que, no que depender de mim, na minha presença ninguém há-de pôr mão neste tipo de coisas. No entanto, desaparece aquele peso. Fica a sensação de que, pelo menos existe a hipótese de aquela carta chegar às mãos do destino, que um dia eu olhei, por quem um dia chorei, por quem um dia me feri.
Achava que o meu coração não aguentava estas coisas, mas vaso ruim não quebra. A ferida desta carta a um amor perdido ainda não fechou. Não vai fechar tão cedo. Contudo, eu sou dura, muito, muito dura.
E são coisas como esta carta, esta e outras 30, 40, 50, que me fazem perceber, que apesar de não estar sozinha no mundo, não fui feita para amores passionais. O meu coração gosta demasiado de pessoas. Envolve-se com uma rapidez fulminante. Apaixona-se sempre pelas pessoas erradas. Se não são futebolistas, são intocáveis, se não são Deuses, são inventados, e se são perfeitos, são personagens dos meus livros predilectos.
Quem quer que me ande a acertar com as setas que perceba de uma vez por todas: não fui feita para isto. Não fui feita para amar assim. Não quero passar a vida a sufocar. Amo a vida, amo os meus pais, amo as minhas viagens, amo conduzir. Não posso amar os Homens. Não posso depender de outro ser humano para me sentir viva. Para isso, existo eu.
Em suma, ainda bem que escrevi e li estas cartas. Se as lesse todos os dias, talvez começasse a entrar-me na cabeça que há pessoas que simplesmente não foram destinadas para tal, nem merecem amar.
Eu sou uma delas. E já tenho 20 anos de inconformismo. Há que começar a conformar.