sábado, 21 de dezembro de 2013

Massacre


Às vezes sinto-me uma mentecapta. 

Levo a palavra dos outros a sério, massacro-me ainda mais do que me massacram diariamente. 

Queria tanto que tudo me fosse indiferente. Infelizmente, por mais que o diga, não nasci com coração de pedra. Sinto que preciso de uma "limpeza geral". E se não a fizer, tenho uma arma apontada à cabeça, pela minha própria sanidade. Há muitas coisas que preciso de enterrar, nomeadamente o meu coração humilde e humilhante que palpita por tudo e por nada.

Quero aproveitar estes dias de "descanso" para mim. Eu e os meus retiros. Aqueles que já não faço há muito tempo. As músicas que já não ouço há muito tempo. As palavras guardadas na mente que nunca mais saíram. As séries guardadas no disco que nunca mais vi. Os livros que ganham pó na estante. O piano que ganha ainda mais pó no canto da sala. A minha almofada predilecta que não me tem visto nos últimos tempos. O meu carro, que já nem anda em termos, por falta de uso. As minhas estradas, que já não me conhecem. Os caminhos que só eu conheço. 

Preciso de mim. Do meu eu genuíno. De desaparecer com esta pessoa cabisbaixa e negra que já não conheço de lado nenhum.

Preciso de parar com este massacre

domingo, 15 de dezembro de 2013

Ando sem tempo





Ando sem tempo. Para pensar em termos. Para o diálogo. Para as idas e voltas contínuas às utopias. Para ouvir passar o vento. Para escrever. 
Falta de tempo para escrever é tudo o que eu não quero na vida. 
Quem quiser arrancar-me o que quer que seja da alma, só tem uma solução: que me prive de escrever. Que não me deixe pegar no meu papel e na minha caneta prediletos. Que não me deixe sentar-me nos locais que me transmitem paz de espírito, que me prenda longe de tudo o que me faz bem. Que me torture a toda a hora e momento, sem me dar um minuto de sossego. 
Talvez aí surja o meu lado mais obscuro. Aquele que de vez em quando aparece do nada e me apanha desprevenida. Aquele que me dá uma vontade incrível de desaparecer para sempre. Aquele que me dá vontade de me esconder, e não voltar mais. O lado negro que nunca quero mostrar, mas que de vez em quando surge para me assombrar a vida. 
Fico à espera da luz, mas ela nunca vem. Há muito tempo que já não vem. E o escuro escurece. E o negro fica mais negro. 
E eu ando sem tempo. 

Ariana

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Hoje: "Quase"


Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo ... e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos de alma que,desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Sempre foi um dos meus poemas predilectos. Estudar Mário de Sá Carneiro nas aulas de Literatura Portuguesa era quase um privilégio. Sempre se aplicou a muitas situações da minha vida, todas em momentos separados, mas com um denominador comum: o quase. 
Quase perdi a paciência, quase disse o que queria dizer, quase consegui o que queria, quase aguentei tudo e mais alguma coisa... 
Neste momento, estou quase a entrar em ponto de ebulição. Chegar ao ponto de ouvir músicas alusivas à minha vida académica, e também pessoal, é a pior sensação do mundo.
Quase que quero aguentar. Sei que é um orgulho. Sei que é a maior felicidade de muitos. Sei que é um rito de passagem. Tenho perfeita noção, mais do que muitos, do brio do negro. Da primeira, e da última lágrima. Dos abraços. Da família
Quase consigo atingir as metas. Quase consigo aguentar o caminho, que já está na reta final. Quase consigo aguentar as "mãos de herói, sem fé, acobardadas". 
Tal como a Sá Carneiro, também puseram grades sobre os meus precipícios. Aliás, criaram-nos onde eles não estavam. Em terra plana, e perfeitamente estável. E agora, quase que consigo atirar-me ao precipício. 
Para já, fica a desilusão. O "desencanto das coisas que beijei mas não vivi". O sonho. O golpe de asa. Quase, quase no final. Mas é a isso que se chama morrer na praia

Ariana

Fazes-me falta


Fazes-me falta. O teu sorriso, a tua voz, o teu jeitinho de sorrir com os olhos, e o teu jeito ainda maior para sorrir com toda a franqueza, as gargalhadas sentidas, a mais sincera e sentida das vozes, que é tua, e só tua.
De todas as vezes que procuro evocar uma voz na minha mente, é a tua que me surge no íntimo.
Os teus falsetes despropositados, a maneira inconfundível como chamas pelo meu nome, que era capaz de conseguir decifrar até na Fossa das Marianas, a forma como me reprimes, por muito pouco que seja, e até a tua gaguez intencional. Até isso me faz falta. Tudo em ti me faz falta. Por muito que visualize a tua imagem, recorde a tua voz com toda a perfeição, e com todos os tiques que ela traz, e que me tragam à lembrança os teus sorrisos diversos, se não estiveres ao meu lado, com tudo a que a tua personalidade tem direito, não és tu. Não te posso tocar. Não posso devanear sem parecer uma psicopata que fala no sono. Não é nada de nada, a não ser a minha imaginação.
Tudo isto para te dizer: fazes-me falta. E eu não me vou adequar, não me vou adaptar ao resto do universo, enquanto não te tiver comigo. E ainda assim, vou continuar a sentir a tua falta, enquanto não estiveres comigo. Todos os dias da minha vida. 

Ariana

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Sexta-feira


Sagradas, estas noites de sexta-feira. Às vezes, matava para todos as minhas noites fossem como as de sexta-feira. Os passeios nocturnos que são sagrados. Longe do mundo. Longe de tudo e de todos. Nada mais existe senão eu, o carro, a minha Ribeira. Os meus cantinhos. Só eles, e eu. 
Deixem-me ficar para sempre presa na sexta à noite. Não quero sábados, nem domingos. Não interessa. Nada tira a magia da sexta-feira. 
Não peço mais nada senão esta paz. Não me importo de viver esta rotina para sempre. Não me importo de ficar ignorante para sempre. Não me importo de ser eremita para sempre. 
Estou condenada ao vazio, e estou...

Ariana

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Efémero



Dia triste. Demasiadas desgraças. Duas perdas enormes. Coração vazio, mas carregado de tristeza. Desilusão. Revolta. 

Quero muito acreditar que Deus escreve direito por linhas tortas, mas às vezes acho que mais depressa escreve torto por linhas direitas. 
Hoje, mergulhei-me no trabalho. Por muito que eu, e o resto do mundo, reclame com o trabalho, com o stress, com as milhares de coisas na cabeça por dia, por vezes é o melhor remédio. Enquanto estive mergulhada na minha pseudo vida de jorna, não pensei em mais nada. Os problemas ficam lá fora. Em retiro espiritual, à espera de me assombrar no momento em que eu atravessar a linha do emocional

Assim foi. Pisei a linha, e lá estavam eles. Como sempre. 
Hoje, mais do que nunca, sinto o sentimento de perda atravessada na minha garganta. Sinto que a qualquer momento, vou vê-lo a sair da minha varanda, e a desaparecer por entre o Largo da Lapa. Fico à espera. Sempre à espera. No entanto, nada acontece. E eu não quero deixá-lo a morrer ao frio. 
O mundo é injusto. Eventualmente, se chegar aos 99 anos, vou acabar por ser capaz de perceber isso.
Até lá, revolto-me. E tenho saudadesE escrevo. Escrevo. Escrevo...

Ariana 

Hoje: "All of Me"


"The world is beating you down, I’m around through every move
You’re my downfall, you’re my muse
My worst distraction, my rhythm and blues
I can’t stop singing, it’s ringing, I my head for you"

Uma história de amor. É o que toda esta melodia me lembra. Uma história de amor muito bonita, com muito para contar. A história em específico que esta música me faz recordar é minha. Fecho os olhos, e as únicas pessoas que vejo são os meus primos mais novos. Ao Domingo.  O António, o Zé Miguel, o Gustavo, a Beatriz, o Salvador, o Luis, e todos os outros em catadupa. Ao estalo e ao pontapé, a discutir por causa de uma mola da roupa, mas felizes. A felicidade deles sempre me comoveu. Sempre me fez sentir um bocadinho maior neste mundo. 
Desde que um deles nasceu que a minha vida virou do avesso. É um marco da reviravolta que dei nessa altura. Talvez seja por isso que sempre fui tão ligada a ele. Acompanhei tudo: a primeira papa, o primeiro dente, os primeiros passos, a primeira palavra (ainda hoje cismo que foi Nana), a primeira queda, a primeira birra. Sempre fui ligada a ele quase como se fosse meu irmão, meu protegido. Quase como se fosse o meu próprio filho. 
As crianças crescem, o vocabulário muda, e o tempo também.  Deixei de o ver aos fins-de-semana, fruto das circunstâncias da vida dele, e da minha também. Já não acompanhava o crescimento dele com tanta frequência. Agora, quando ele me vê, já não vem a correr para o meu colo, como sempre fez. Já não me dá a mão, e não me pede para irmos passear. Já não me chama minha coisinha boa, e já não faz uma festa gigantesca. Já não o levo a passear para adormecer. 
Desde que ele mudou, que os meus fins-de-semana parecem mais vazios. Dantes, saía da minha avó sempre suja com sopa, com papa, ou com o que quer que a criança me obrigasse a enfiar pela cabeça abaixo. Saía da minha avó com as costas doridas, de tanto o ter encavalitado nelas. Saía sempre de sorriso no rosto, porque me sentia acarinhada por um bebé de 2 anos. 
Agora, sempre que faço o circuito em que conduzia para o adormecer, e que vulgarmente faço aos fins-de-semana para reflectir no desastre que é a minha existência, sinto uma pontada de dor e saudade no coração. A vida passa. E como passa. É nas crianças que logo noto. 
Porque é que o John Legend está envolvido nesta história toda? Já não é a 2ª nem a 3ª vez que, de cada vez que passo nessa estrada, esta música começa a tocar. Não há como não me lembrar do puto, que outrora passava ali comigo a cada passo. Não há como não doer, e não pensar "tudo passa". Depressa demais. 

Ariana


quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Arsenal: this will be the year!





34 pontos. Líderes indiscutíveis da Premier League. Vitória absoluta em casa. 

O que posso eu pedir mais? 
Ah, o Bendtner foi titular. E marcou. 

O mundo está perdido. 

Hoje: "Traz Outro Amigo Também"


"Em terras
Em todas as fronteiras
Seja bem vindo quem vier por bem
Se alguém houver que não queira
Trá-lo contigo também"

Cronologicamente, hoje é um dia muito especial no meu calendário. Passei o dia a traulitar Zeca Afonso. 
Há 33 anos, morreu Francisco Sá Carneiro. O Homem de quem ouço falar praticamente desde nasci. O Homem a quem associo o termo "social-democracia". O Homem que sempre liguei ao meu avô, que me deixou cedo demais. Um dos nomes que tenho gravados na mente desde sempre, e para sempre. Um exemplo que me foi dado desde os meus primeiros passos. 
Ao mesmo tempo, há 39 anos, nasceu a minha tia Guida, uma pessoa extremamente revolucionária, dedicada às suas causas, e uma das melhores pessoas que alguma vez conheci. É genuinamente da geração de 74. Nasceu com o 25 de Abril, e ainda hoje acho que é por todas estas razões que sempre a conheci dedicada a causas e lutas perdidas. 
À minha tia Guida, associo e associarei Zeca Afonso. Sempre. E Sá Carneiro. Parecendo que não, está tudo ligado. E é um dia muito, muito especial. 

Ariana 

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

"As palavras que nunca te direi"


"Well, it's been days now and you change your mind again
All the cracks in the walls reminds you of things we said 
And I could tell you that I won't hurt you this time 
But it's just safer to keep you in this heart of mine."  

Na minha fase de pré-adolescência, tinha por hábito algo muito aleatório: escrever cartas endereçadas a pessoas que faziam parte da minha vida, directa ou indirectamente, a descrever tudo aquilo que tornava a pessoa em questão especial para mim. Escrevia as minhas angústias, os meus receios, o que me fazia ficar de "pé atrás". Se me lembrasse escrevia até como é que tinha conhecido aquela pessoa, quais eram as minhas primeiras memórias, e mais importante: demonstrava sempre o quão importante esse alguém era para mim. E porquê. E quais foram os motivos, se é que existiam. O meu pensamento era: "se um dia me acontecer alguma coisa, ninguém importante na minha vida há-de ficar sem saber o significado que tem/teve para mim". Acabou por ser uma ideia engraçada, e que perdurou durante largos meses, até que desisti. Algures no mês de Agosto de 2013, fiz uma coisa que faço muito, muito raramente: pegar na minha caixinha com coisas antigas escritas. A minha box of revelations, como por pura brincadeira gosto de lhe chamar. E eis que encontro essas cartas. Confesso que passei uma tarde muito boa. Ri-me muito sozinha, chorei em iguais ou maiores quantidades... 

Pensei: "porque não retomar esta ideia?" Realmente, passados oito anos, o fundamento é o mesmo. E nesses oito anos, acabou por me acontecer. Perdi demasiada gente a quem nada disse. Pelo menos, nada do que queria. Perdi pessoas que nunca mais terei oportunidade de vislumbrar, e que neste momento não sabem, e nunca saberão, a importância que tinham na minha vida. E eu não quero viver com esse peso na consciência. Nem no coração. Nunca mais. 

Assim o fiz. No dia seguinte, já estava a escrever cartas aleatórias ao Carlos Eduardo da Maia. Há que ser prevenida, se um dia o Fábio Assunção ficar com conhecimento disto, há-de saber que para mim não há Carlos da Maia como ele, e o meu propósito está arrumado. Passei um dia inteiro a rascunhar pessoas a quem gostava de dizer algumas coisas. Rabiscos escritos aqui e acolá, por entre montes e vales, sufocos e risos saudosistas. 

Tudo isto se deve ao facto de eu, na minha profunda estupidez, ter decidido ler uma dessas cartas. Uma das mais recentes. Uma carta dirigida a um amor perdido, e que nunca, mas nunca vou ter o mínimo de chance de conseguir recuperar, porque é demasiado irrealizável, até para os meus romances históricos. Não, não andei a escrever cartas para o Henrique Tudor, nem para o Sá Carneiro, tampouco para o verdadeiro amor platónico da minha vida, Lukas Podolski. Mas ainda assim, doeu-me. Cada palavra cortava-me como uma lâmina acabadinha de afiar. Detalhei tudo: o meu primeiro olhar, a minha primeira desconfiança, as minhas primeiras borboletas no estômago, aquelas tais que toda a gente sabe que eu odeio de morte, a minha primeira desilusão, a minha primeira constatação do impossível... Escrutinei tudo até ao último segundo. Sei que, no que depender de mim, na minha presença ninguém há-de pôr mão neste tipo de coisas. No entanto, desaparece aquele peso. Fica a sensação de que, pelo menos existe a hipótese de aquela carta chegar às mãos do destino, que um dia eu olhei, por quem um dia chorei, por quem um dia me feri. 

Achava que o meu coração não aguentava estas coisas, mas vaso ruim não quebra. A ferida desta carta a um amor perdido ainda não fechou. Não vai fechar tão cedo. Contudo, eu sou dura, muito, muito dura. 

E são coisas como esta carta, esta e outras 30, 40, 50, que me fazem perceber, que apesar de não estar sozinha no mundo, não fui feita para amores passionais. O meu coração gosta demasiado de pessoas. Envolve-se com uma rapidez fulminante. Apaixona-se sempre pelas pessoas erradas. Se não são futebolistas, são intocáveis, se não são Deuses, são inventados, e se são perfeitos, são personagens dos meus livros predilectos.

Quem quer que me ande a acertar com as setas que perceba de uma vez por todas: não fui feita para isto. Não fui feita para amar assim. Não quero passar a vida a sufocar. Amo a vida, amo os meus pais, amo as minhas viagens, amo conduzir. Não posso amar os Homens. Não posso depender de outro ser humano para me sentir viva. Para isso, existo eu. 

Em suma, ainda bem que escrevi e li estas cartas. Se as lesse todos os dias, talvez começasse a entrar-me na cabeça que há pessoas que simplesmente não foram destinadas para tal, nem merecem amar. 

Eu sou uma delas. E já tenho 20 anos de inconformismo. Há que começar a conformar. 

Como sobreviver a um dia macabro







Volta depressa, eu e o mundo temos saudades tuas.

Como é que é possível rir-me tanto e ser tão feliz com uma criatura destas? 

"Goldi Poldi Halleluja,
Goldi Poldi Halleluja,
Goldi Poldi Halleluja,
es gibt einen Fußballgott." <3

Hoje: "Heartbreak Warfare"



"How come the only way to know how high you get me
is to see how far I fall
God only knows how much I'd love you if you let me
but I can't break through at all."

Do nada, lembrei-me desta música. Apesar de invocar um desgosto de foro amoroso, a mim só traz bonitas recordações
O meu 11º ano. Dava-me ao trabalho de descer, pelo menos duas vezes por semana, do Sá de Miranda até ao Jardim de Santa Bárbara no final das aulas, para matar tempo antes do autocarro, e para poder relaxar, muitas vezes ao som de John Mayer
Creio que andava com o coraçãozito meio partido. Paixonetas do secundário. Não há-de ter sido grande coisa, até porque não me lembro bem.
De lembranças, tenho as que mais valem a pena. O cheiro a flores frescas, os bancos de pedra, o solinho a aquecer a face. 
Tenho muitas saudades desses tempos. E na altura, nunca sabemos aproveitá-los em termos.


Ariana


segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Apatia


"Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
        Estou hoje dividido entre a lealdade que devo

        À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
        E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro."


Não tenho sono. 
Não tenho fome. 
Não tenho sede. 
Não quero conduzir. 
Não quero subir aos Alpes. 
Não quero ver séries. 
Não quero ver filmes.
Não quero ler. 
Não me apetece escrever. 
Não me apetece tocar piano. 
Não me apetece ouvir músicas idiotas. 
Não me apetece fitar a parede. 
Não me apetece não fazer nada. 
Não me apetece viver neste mundo de lunáticos.

E não, não estou deprimida, não estou apaixonada, não estou com nenhum distúrbio mental. 
Diagnósticos? Apatia. Desilusão. Exclusão. 
É o mundo a fazer das suas. A castigar-me pelo que não fiz. Nunca mais aprendo.

Ariana

Hoje: "Prece"


"Talvez que eu morra de noite, onde a morte é natural. 

As mãos em cruz sobre o peito.

Das mãos de Deus tudo aceito, mas que eu morra em Portugal." 


Noites estreladas ao relento em Odemira a ouvir CD's da Amália infinitamente. Que estas memórias se repitam dentro em breve. 

Prece para a minha mãe, que tem andado demasiado convalescente.


Ariana


domingo, 1 de dezembro de 2013

Epifania



Desde muito pequena que tenho a mania de fazer pseudo-resoluções no início de cada semana, de cada mês, de cada ano, de cada viragem na minha vida. Creio que, por mais que tente, isso nunca vai mudar. 

Hoje, dia 1 de Dezembro, foi a vez de uma nova resolução: renovar a minha forma de partilhar o que me vai na calma. Foi aí que me lembrei deste projecto, que nunca existiu senão em 2 posts e na minha cabeça, mas que nunca tive coragem de apagar porque, de certa forma, tinha esperança de preencher o espaço que aqui deixei vazio. 

Há dias que ando numa espécie de bloqueio mental. Poucos são os que têm conhecimento disto: tenho por hábito andar sempre com um caderno de bolso, desde que me conheço, para partilhar o que me vai na mente. Por vezes, não há como o papel e a caneta para desbravar caminhos, desvendar sentimentos ocultos, deixar sair lágrimas há muito escondidas no íntimo. E, por norma, escrevo páginas e páginas ao longo dos dias. Nos últimos dias, pego na caneta, e nada me sai senão rabiscos sem sentido. Não consigo escrever. Já estive em todos os locais nos quais gosto de me sentar sem nada à minha volta, já pensei nas 1001 coisas que quero passar para o físico, e mesmo assim não consigo. A caneta prende-se na minha mão e fica ali, qual desvairada sem rumo para vida. 

Foi nesse sentido que me lembrei do Opiário (que precisa de uns arranjinhos a nível de design, não que seja minimamente relevante, mas quero que a minha desorganização mental se transmita em termos). Pela facilidade de acesso, pela rapidez e fluidez de ideias, pelos desabafos que talvez nunca sejam lidos. Não importa. Quero escrever o que me vai na alma. Quero partilhar alguns desses devaneios. Sejam eles pessoais, aleatórios, subjectivos, imprecisos. Sobre isto ou aquilo, sobre o tempo lá fora ou o campeonato da 2ª divisão da distrital de Braga. Sem filtros.  Não há um único ser vivo em quem consiga confiar os meus mais íntimos (ainda que não sejam preciosos) desabafos, aqueles que escrevo no alto da minha janela, ou no alto do monte, sem que ninguém me incomode. Esses vão acabar por desaparecer, às mãos de uma criatura malvada, ou no fumo da minha lareira.  Estes, pelo menos, hão-de ficar para a imortalidade. 

Que assim seja. 
Ariana 

PS: Não sou, de forma alguma, a favor do ABORTO ortográfico.