quinta-feira, 20 de agosto de 2015

ainda cá estou


ainda estou cá. resisto e existo. por mais só que me sinta no mundo, por mais que as palavras custem a sair,
por mais que me doa cada ecoar, cada som saído do diafragma, por mais que a garganta engula o sal das lágrimas, 
por mais que não pareçam existir horas para nada, ainda cá estou. 
ecos voam na minha mente. tudo o que queria fazer e não fiz, talvez por medo de tudo ou mais alguma coisa, 
ou simplesmente porque os ventos não voaram na minha direção. ainda cá estou. 
e eis que quando tudo parece seguir na direção certa, levo com mais um murro que me deixa o corpo em sangue, 
e a alma mais ferida do que na noite anterior. mais uma sombra, mas ainda cá estou. 
continuo a resistir a todas as ameaças, às noites frias, às barreiras que teimam em aparecer, 
ainda cá estou. apanho sempre por tabela em todas as circunstâncias, sempre que te aparece uma tentação 
que parece poder prender-te a algo rentável, mas que se revela como tudo na tua vida: morto
ainda cá estou, e ainda me consegues apanhar, e ainda vais a tempo de perceber que tudo é possível na tua 
vida. 
basta quereres abrir as tuas enormes asas e voar

com toda a estima que te terei, mais do que tudo o que te rodeia na vida,

o teu sonho. 

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Queda Livre


Existiam pelo menos mil e uma coisas que eu fazia questão de viver. Passo por passo, sem atropelos nem rebelias. Como é mais do que óbvio, transmutei-me mais vezes do que alguma vez cheguei a imaginar, e tropecei nos meus próprios pés até conseguir rastejar em sangue. Os sonhos não se contavam pelos dedos, nem sequer por todos os ossos do meu corpo.

Quando é que chegamos a este impasse, em que tudo o que ambicionamos se transforma em pó, em que percebemos que a maioria das pessoas vive num mundo hipócrita, em que entendemos que afinal ninguém te quer bem? Foram precisos 20 anos e troca o passo para conseguir chegar à conclusão de que o ser humano consegue ser, ao mesmo tempo, o mais precioso que temos na vida, e a maior podridão que caminha na terra? Foram. E ainda não aprendi nem metade. No meio de toda esta aprendizagem em conta-gotas, perderam-se os pergaminhos de sonhos, de viagens, de caminhos virgens que nunca chegaram sequer a ser imaginados, mas já estavam lá, escondidos nas milhares de gavetas que tenho fora da minha caixinha de Pandora, eternamente por arrumar?

Ainda ontem dei por mim a pensar: se calhar uma bússola resolve tudo. Tendo em conta o mess up que se esconde nas minhas eternas gavetas, e o quão me sinto perdida por entre os ramos deste cantinho, outrora um cantinho do céu?

Nunca pensei que chegar a esta sensação de queda livre constante não fosse senão libertador. Afinal, enganei-me. Redondamente. 

terça-feira, 13 de maio de 2014

Hoje: "All Yours"


"Tear me down they can
Take you out of my thoughts
Under every scar
There's a battle I've lost

Will they stop when they see us again?
I can't stop now I know who I am

Now I'm all yours, I'm not afraid
I'm yours always
Say what they may
And all your love I'll take to a grave
And all my life starts...
Starts now"


Porque andava a fugir ao ópio da escrita. Dos ventos que melhor conheço. Dos sons que me são familiares. Da estradas que posso percorrer de olhos fechados. Do piano, encharcado em pó. Da minha vida. 
Porque o amor não se faz de uma mudança maligna e cancerosa. Porque nunca hei-de mudar por alguém. Porque hão-de dizer o que quiserem, hão-de apontar o dedo quantas vezes quiserem. Porque eu nunca hei-de parar. 

Volta, estrada. Volta, Verão encartado de 2013. Volta em 2014, e sê bem melhor e mais criativo do que nunca. Traz de novo aquelas tardes solitárias a ler os Maias e a estudar coisas aleatórias. Traz-me isso, e traz-me paz, porque a minha vida começa aí. Em cada pedacinho meu.  


sábado, 15 de fevereiro de 2014

Choremos: O Romance morreu


Em dias como o "Dia dos Namorados", é inevitável carregar a minha mente de pensamentos sobre o Amor e as suas Loucuras. Em 365 dias no ano, existe um dia dedicado ao amor, ao romance, à luxúria, à paixão. Tudo isto com letras minúsculas, porque é mesmo o que isto merece. É bom que existam dias como o dia dos Namorados, a Economia precisa de girar: os cabeleireiros, pasteleiros, floristas, donos de restaurantes bem precisam de clientela. Escusado será dizer que acho uma estupidez pegada o consumismo exacerbado ligado a este dia. Não quero ser mal interpretada, considero-me uma romântica incurável (quando sonho com os meus amores impossíveis). Tal não faz com que deixe de achar absurdo que exista um dia dedicado exclusivamente aos casais enamorados, quando devia ser algo festejado a cada dia. Enfim. Não é isso que me traz a desabafar por estes lados. Não é só esta história das americanices importadas do Valentine's Day que me traz ao Opiário hoje. 

É tudo o que isto me recorda. 

Hoje em dia, o Romance está em apuros.  Aliás, faz parte da magia do Romance estar eternamente em apuros. O problema é que, nos dias que correm, o Romance está a morrer. Mais do que em todas as outras alturas. 
As flores que hoje tantos oferecem começam a murchar amanhã. E depois? Já não se fazem amores eternos. Hoje em dia, são mais as paixões desenfreadas e fugazes, as one-night stands, os amigos para as ocasiões. Vivemos numa época de banalização do sexo, da violência, do escândalo, em que a sexualidade e a podridão se vendem a cada esquina, exploradas em estímulos visuais que aparecem aos pontapés. A ideia de amor romântico é uma anedota para a maioria do ser humano comum. As paixões avassaladoras, que nos assombram cada célula do corpo, só existem em livros e nos filmes, e são substituídas pela paixonite aguda, aquela que se deita fora no minuto seguinte. Já não há tempo para amar. O stress, a correria do dia-a-dia, os problemas que se atravessam na vida, não nos deixam tempo para aquilo que é mais importante no mundo. 
Os dias vão passando, e perdendo a magia a cada momento, porque o Amor perde mais brilho se não tiver quem olhe através dos seus Olhos, aqueles que vêem tudo mais bonito e mais possível do que os mais leigos. A própria Bíblia Sagrada refere: "Se não tiver Amor, nada sou". 
É isso que falta ao mundo. Faltam os olhos dos que Amam. Faltam os cinco sentidos dos românticos, que vêem o mundo de uma forma muito mais poética e colorida. Muito mais bonita. É o Amor que torna as pessoas felizes, que torna o mundo melhor. 
Que é feito de Romances como o de Jane Eyre, que encontra o seu eterno amado Rochester cego e cuida dele após a morte da mulher? De Tristão, cavaleiro lendário, que se apaixona pela princesa Isolda e, no leito da sua morte, ainda chama pelo seu nome? De Isolda, que morre de desgosto ao encontrar o seu amado já partido para a eternidade? De Eurico, o Presbítero, que se força a recusar o amor de Hermengarda devido às suas convicções religiosas, e parte para a guerra? De Páris e Helena de Tróia, que fogem, mesmo sendo Helena casada? De Carlos Eduardo e Maria Eduarda que, desconhecendo o laço de sangue que os une, se amam e decidem fugir? De Lizzie Bennet e de Darcy, que se repelem devido à divergência social, e acabam por descobrir que não aguentam longe um do outro? 
Como estes Romances Épicos, podia referir muitos mais. E não existiam só nos livros. 
Não há tempo para o Romance. Não há tempo para o Amor. Ambos murcham, e fogem para terras quentes, migram como as aves no Inverno. 
O grande problema reside no facto de um dia, poderem murchar de vez. Enquanto há vida, há esperança. 
Mas a verdade é que a vida do Romance já está por um fio há muito tempo. 


Para mim, Maria Apaixonada pelo Mundo, o Romance morreu. Já definha no peito há mil décadas. E está a ficar com um aspecto sórdido, visto até de quem o olha com saudade.

Ariana





domingo, 9 de fevereiro de 2014

Episódios da vida romântica: Epílogo


"Ega ergueu-se, atirou-se um gesto desolado:
- Falhámos a vida, menino!
- Creio que sim… Mas todo mundo mais ou menos falha. isto é, falha-se sempre na realidade aquela vida que se planeou com a imaginação. Diz-se: “vou ser assim, porque a beleza está em ser assim”. E nunca se é assim, é-se invariavelmente assado, como dizia o pobre marquês. Às vezes melhor, mas sempre diferente.
Ega concordou, com um suspiro mudo, começando a calçar as luvas.
O quarto escurecia no crepúsculo frio e melancólico de inverno. Carlos pôs também o chapéu: desceram pelas escadas forradas de veludo cor de cereja, onde ainda pendia, com um ar baço de ferrugem, a panóplia de velhas armas. Depois na rua Carlos parou, deu um longo olhar ao sombrio casarão, que naquela primeira penumbra tomava um aspecto mais carregado de residência eclesiástica, com as paredes severas, a sua fila de janelinhas fechadas, as grades dos postigos térreos cheias de treva, mudo,para sempre desabitado, cobrindo-se já de tons de ruína.
- É curioso! Só vivi dois anos nesta casa, e é nela que me parece estar metida a minha vida inteira!
Ega não se admirava. Só ali no Ramalhete ele vivera realmente daquilo que dá sabor e relevo à vida – a paixão.
- Muitas outras coisas dão valor à vida… Isso é uma velha idéia de romântico, meu Ega!
- E o que somos nós? – exclamou Ega. – Que temos nós sido desde o colégio, desde o exame de latim? Romãnticos: isto é, indivíduos inferiores que se governam na vida pelos sentimentos, e não pela razão."


"- Tu nunca me disseste como foi o teu último encontro com ela em Santa Apolónia.
- Foi a conclusão. O remate absoluto da nossa história. Enfim, acabou-se. Pelo menos acertamos a teoria definitiva da existência. Nada desejar e nada recear... Não se abandonar a uma esperança - nem a um desapontamento. Tudo aceitar o que vem e o que foge, com a tranquilidade com que se acolhem as naturais mudanças de dias agrestes e de dias suaves."



 

"Ega, em suma, concordava. Do que ele principalmente se convencera, nesses estreitos anos de vida, era da inutilidade do todo o esforço. Não valia a pena dar um passo para alcançar coisa alguma na terra - porque tudo se resolve, como já ensinara o sábio do Eclesiastes, em desilusão e poeira.
- Se me dissessem que ali em baixo estava a maior das fortunas à minha espera, para ser minha se eu para lá corresse, não apressava o meu passo. Não! Não saía deste passinho lento, prudente, correcto, seguro, que é o único que se deve ter na vida.
Nem eu! - acudiu Carlos com uma convicção decisiva.
E ambos retardaram o passo, descendo para a rampa de Santos, como se aquele fosse em verdade o caminho da vida, onde eles, certos de só encontrar ao fim desilusão e poeira, não devessem jamais avançar senão com lentidão e desdém.
 (…) 
De repente, Carlos teve um largo gesto de contrariedade:
- Que ferro! E eu que vinha desde Paris com este apetite! Esqueci-me de mandar fazer hoje para o jantar um grande prato de paio com ervilhas.
E agora já era tarde, lembrou Ega. Então Carlos, até ai esquecido em memórias do passado e sínteses da existência, pareceu ter inesperadamente consciência da noite que caíra, dos candeeiros acesos. A um bico de gás tirou o relógio. Eram seis e um quarto!
- Oh, diabo!... E eu que disse ao Vilaça e aos rapazes para estarem no Bragança pontualmente às seis! Não aparecer por ai uma tipóia!...

- Espera! - exclamou Ega - Lá vem um "americano", ainda o apanhamos."

"- Ainda o apanhamos! Os dois amigos lançaram o passo, largamente.

E Carlos, que arrojara o charuto, ia dizendo na aragem fina e fria que lhes cortava a face:
- Que raiva ter esquecido o paiozinho! Enfim, acabou-se. Ao menos assentamos a teoria definitiva da existência. Com efeito, não vale a pena fazer um esforço, correr com ânsia para coisa alguma...

Ega, ao lado, ajuntava, ofegante, atirando as pernas magras:
- Nem para o amor, nem para a glória, nem para o dinheiro, nem para o poder...
A lanterna vermelha do «americano», ao longe, no escuro, parara. E foi em Carlos e em João da Ega uma esperança, outro esforço:
- Ainda o apanhamos!
- Ainda o apanhamos!

De novo a lanterna deslizou, e fugiu. Então, para apanhar o "americano", os dois amigos romperam a correr desesperadamente pela rampa de Santos e pelo Aterro, sob a primeira claridade do luar que subia."


Este corre, não corre, vai , não vai... Que saudades d'Os Maias, da minha lição de vida...

Tempo de nada




Desde tenra idade que estes meados de Fevereiro são penosos para mim e para a minha consciência. Por motivos adversos, e que nunca me vão largar, provavelmente nem depois da cova. 

Ultimamente tenho pensado muito, mais do que é usual, no sentido das coisas. No dever, e no querer. No que devia ser, fazer, acontecer, e permanece intacto. Nas desgraças que deviam ficar enterradas no buraco, mas que insistem em ressurgir das cinzas há muito espalhadas pela minha memória a longo prazo. O certo é que são tantas, tantas, tantas, umas atrás das outras, que o meu cérebro não tem oportunidade de as esconder de mim. 

Com isto tudo, só consigo apreender uma verdade: o tempo não é assim tão milagroso quanto o apregoam. Sempre conheci a tal história de "o tempo cura tudo, tudo passa". Balelas. Muitos pensarão, "que raio sabes tu, catraia, com nem um quarto de século nesta terra, do que o tempo cura ou deixa de curar?". Desenganai-vos. Não falo de paixões psicadélicas, que também por cá já andaram. Antes falasse. A vida deu-me castigos muito mais penosos. Fui obrigada a crescer, a perceber coisas que, na minha pré-adolescência, jamais alguém merecia entender. Fui obrigada, desde cedo, a entender que nada dura para sempre. Tudo é efémero. Que tudo se esvai em fumo numa questão de microsegundos. Fui obrigada a perder tanta coisa...
Hoje, ante tantas outras tragédias e psicopatias que assolapam a minha vida, não consigo ficar imune. Devia, não devia? Afinal de contas, o tempo tudo cura. Tretas. Tretas psicopatas. O tempo não cura. O tempo vai cicatrizando as feridas que, de quando a quando, insistem em aparecer de novo para assombrar uma memória outrora limpa e feliz. 

O tempo não é meu amigo. O tempo é traidor. O tempo um dia há-de me torturar lentamente até eu suplicar por um fim em dignidade. Acho que já começou a fazê-lo há muito mais do que me apraz dizer. 

Odeio estes dias. Odeio esta dor crónica. E odeio, profundamente, o tempo.

Ariana

sábado, 18 de janeiro de 2014

Retiros


re·ti·ro

(derivação regressiva de retirar)

1. Lugar retirado.
2. Refúgio.
3. Casa de campo ou em sítio ermo.
4. Remanso; solidão.
5. Período de afastamento da vida activa, consagrado à meditação religiosa, ao recolhimento, à oração.

(Sinto que a minha vida é um Livro do Desassossego em progresso)


Chuva intensa. Vento a fustigar a janela. Pensamentos que voam pelo mundo fora. Sentimentos que escoam e encontram um lugar físico para fugir à repressão. Só com os demónios. Sem telemóvel, sem internet, sem problemas de qualquer foro.
Num lugar onde todas as palavras podem sair, sem qualquer julgamento de segundos e terceiros. Onde existe a possibilidade de rever todos os passos da vida, de repensar cada decisão e cada ideia louca que surge ao longo dos dias. Sem algemas. Sem rotina. 
Sem nada, a não ser a caneta a correr, o cérebro a girar com coisas que, no dia-a-dia, ficam escondidas onde têm de ficar. Faz bem ao coração, à alma, aos nossos mundos. 

Hoje fiz um destes. Senti que estava a precisar de estar só. Completamente só. Longe do mundo, sem influências do exterior. Precisava de pensar claramente em tudo o que tem acontecido na minha vida nos últimos dias. Tive espaço para rir, para chorar, para reflectir, para fazer as minhas despedidas que nunca acontecem. Não precisei de oprimir pensamentos, de gritar "pára de pensar nisto". É a altura ideal para este tipo de reflexões.

E, pela primeira vez em muito tempo, deixei de sentir um vazio interior, que me corrói há muito mais tempo do que desejava.
Pela primeira vez em muito tempo, tive a sensação de liberdade. 
Pela primeira vez em muito tempo, senti que soube enfrentar os meus demónios, e que não tenho nada a esconder a mim própria. 
Quando a vida e o mundo se cruzarem demasiado na clareza de pensamentos, acções e reacções, esta alienação do mundo é a receita prescrita. Sem custos. Sem pesos. 


Ariana