segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Hoje: "Quase"


Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo ... e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos de alma que,desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Sempre foi um dos meus poemas predilectos. Estudar Mário de Sá Carneiro nas aulas de Literatura Portuguesa era quase um privilégio. Sempre se aplicou a muitas situações da minha vida, todas em momentos separados, mas com um denominador comum: o quase. 
Quase perdi a paciência, quase disse o que queria dizer, quase consegui o que queria, quase aguentei tudo e mais alguma coisa... 
Neste momento, estou quase a entrar em ponto de ebulição. Chegar ao ponto de ouvir músicas alusivas à minha vida académica, e também pessoal, é a pior sensação do mundo.
Quase que quero aguentar. Sei que é um orgulho. Sei que é a maior felicidade de muitos. Sei que é um rito de passagem. Tenho perfeita noção, mais do que muitos, do brio do negro. Da primeira, e da última lágrima. Dos abraços. Da família
Quase consigo atingir as metas. Quase consigo aguentar o caminho, que já está na reta final. Quase consigo aguentar as "mãos de herói, sem fé, acobardadas". 
Tal como a Sá Carneiro, também puseram grades sobre os meus precipícios. Aliás, criaram-nos onde eles não estavam. Em terra plana, e perfeitamente estável. E agora, quase que consigo atirar-me ao precipício. 
Para já, fica a desilusão. O "desencanto das coisas que beijei mas não vivi". O sonho. O golpe de asa. Quase, quase no final. Mas é a isso que se chama morrer na praia

Ariana

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