Existiam pelo menos mil e uma
coisas que eu fazia questão de viver. Passo por passo, sem atropelos nem
rebelias. Como é mais do que óbvio, transmutei-me mais vezes do que alguma vez
cheguei a imaginar, e tropecei nos meus próprios pés até conseguir rastejar em
sangue. Os sonhos não se contavam pelos dedos, nem sequer por todos os ossos do
meu corpo.
Quando é que chegamos a este
impasse, em que tudo o que ambicionamos se transforma em pó, em que percebemos
que a maioria das pessoas vive num mundo hipócrita, em que entendemos que
afinal ninguém te quer bem? Foram precisos 20 anos e troca o passo para conseguir
chegar à conclusão de que o ser humano consegue ser, ao mesmo tempo, o mais
precioso que temos na vida, e a maior podridão que caminha na terra? Foram. E
ainda não aprendi nem metade. No meio de toda esta aprendizagem em conta-gotas,
perderam-se os pergaminhos de sonhos, de viagens, de caminhos virgens que nunca
chegaram sequer a ser imaginados, mas já estavam lá, escondidos nas milhares de
gavetas que tenho fora da minha caixinha de Pandora, eternamente por arrumar?
Ainda ontem dei por mim a pensar:
se calhar uma bússola resolve tudo. Tendo em conta o mess up que se esconde nas minhas eternas gavetas, e o quão me
sinto perdida por entre os ramos deste cantinho, outrora um cantinho do céu?
Nunca pensei que chegar a esta
sensação de queda livre constante não fosse senão libertador. Afinal,
enganei-me. Redondamente.
